1Introdução
2A doença renal policística autossômica recessiva (DRPAR) é uma forma freqüentemente grave de doença renal cística pediátrica, que afeta os rins e o trato biliar. Sua incidência é estimada em aproximadamente 1:20.000 nascidos vivos, conforme sugerido pelas análises mais recentes de Zerres et al (1).
3Todas as formas típicas da DRPAR devem-se a mutações num mesmo gene, PKHD1 (Polycystic Kidney and Hepatic Disease 1). Este locus foi mapeado no cromossomo 6p21.1-p12 em 1994/1995 (2, 3)e identificado por Onuchic et al e Ward et al em 2002 (4, 5). O primeiro grupo de investigadores chegou a PKHD1 por meio de clonagem posicional, enquanto no outro estudo os pesquisadores o atingiram através da caracterização de seu ortólogo, mutado no modelo de rato PCK. O gene PKHD1 se estende por um segmento genômico de pelo menos 469 kb e é bastante complexo, compreendendo um número mínimo de 86 éxons. Seus éxons se arranjam num complicado padrão de splicing, dando origem a um grande número de transcritos alternativos (4).
4PKHD1 codifica uma proteína integral de membrana de 4.074 aminoácidos e função ainda pouco conhecida, denominada poliductina ou fibrocistina (4, 5). Entretanto, se muitos de seus transcritos alternativos forem traduzidos, as proteínas codificadas por esse gene deverão formar dois grupos: um compreendendo produtos com um domínio transmembrana, ligados à membrana, e outro incluindo proteínas sem esse domínio, portanto solúveis e possivelmente secretadas. O perfil de expressão da poliductina foi recentemente analisado por vários autores. No rim adulto humano, sua expressão foi detectada em túbulos coletores corticais e medulares e no ramo ascendente espesso da alça de Henle (6). No nível subcelular, por sua vez, demonstrou-se a expressão de poliductina em axonema e corpo basal do cílio apical primário, mostrando que a mesma se trata de mais uma proteína envolvida na patogênese de uma doença renal policística expressa nessa organela (6). Também se detectou marcação positiva em membrana luminal e citoplasma de células de ducto coletor. Estes estudos incluíram ainda tecido renal embrionário de camundongo, demonstrando marcação específica nos ramos do broto ureteral.
5A DRPAR pode ser diagnosticada intra-útero, nos primeiros dias ou nos primeiros meses de vida, através da detecção de um aumento renal bilateral difuso ao ultra-som. Sua apresentação clínica, no entanto, é bastante variável, podendo ser identificada no período perinatal, infantil ou juvenil. Oligoidrâmnio é um achado comum, devido ao baixo débito urinário fetal, e raramente é observado antes da 20ª semana de gestação. Como resultado do oligoidrâmnio, os fetos afetados desenvolvem seqüência de Potter, um fenótipo que compreende hipoplasia pulmonar, fácies característica e deformidades das extremidades. Do ponto de vista anátomo-patológico, a DRPAR caracteriza-se por dilatação fusiforme dos túbulos coletores e pela tríade disgenética hepato-portal - caracterizada por hiperplasia de dutos biliares e fibrose hepática congênita.
6A DRPAR é associada a prognóstico reservado, sendo que cerca de 30% dos neonatos acometidos morrem no período perinatal, em geral por insuficiência respiratória. Os casos menos graves sobrevivem e apresentam rins palpáveis bilateralmente, hipertensão arterial, déficit de concentração urinária, acidose metabólica decorrente de um defeito de acidificação distal, e insuficiência renal progressiva. O acometimento hepático é bastante variável, podendo ser assintomático ou apresentar evolução para hipertensão portal.
7Bergmann et al demonstraram que a maior parte das mutações são únicas dentro de uma família (private mutations), dificultando o estabelecimento de correlações genótipo–fenótipo e tornando complexa a elaboração de um teste direto para diagnóstico molecular (7). As correlações genótipo-fenótipo, por sua vez, têm se baseado principalmente no tipo de mutação. Quase todos os pacientes com ambas as mutações associadas ao truncamento do produto do quadro de leitura aberta mais longo do gene apresentaram o fenótipo mais grave da doença, enquanto quase todos os pacientes com fenótipo moderado apresentaram ao menos uma mutação associada à substituição de aminoácidos na cadeia polipeptídica (8, 9, 10). A mutação mais freqüentemente encontrada nos estudos realizados até o momento foi c.107 C>T, uma mutação do tipo missense. A maior taxa de detecção de mutações obtida até o presente, de 87,5%, foi atingida no estudo de Sharp et al, utilizando a estratégia de DHPLC (“denaturing high liquid performance chromatography”)e seqüenciamento (10).
8O presente trabalho teve como objetivo a caracterização clínica inicial e evolutiva dos pacientes com diagnóstico de DRPAR, em seguimento no ambulatório da Unidade de Nefrologia Pediátrica do Instituto da Criança – HCFMUSP, utilizando os questionários inicial e evolutivo utilizados por Guay Woodford et al (Ref) para caracterização da casuística americana (11) . Tais informações serão fundamentais para a ampliação da caracterização clínica da DRPAR e de seu entendimento, bem como para a ampliação do estabelecimento de correlações genótipo-fenótipo.
9Pacientes e Métodos
10Foram analisados, retrospectivamente, os prontuários de pacientes com diagnóstico firmado de DRPAR, matriculados no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, no período de 1990 a julho de 2008. O diagnóstico pautou-se nos critérios de história clínica inicial e evolutiva, tomando como base o instrumento elaborado para este fim por Guay-Woodford et al (11). Os responsáveis por todos os pacientes cujos prontuários foram analisados assinaram termo de consentimento para sua participação no estudo e o projeto foi submetido e aprovado pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa do HCFMUSP.
11A análise estatística dos dados obtidos foi feita de maneira descritiva, utilizando valores médios (ou medianas), máximos e mínimos para variáveis contínuas e freqüências para variáveis categóricas.
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13Resultados
14Delimitação da coorte e características demográficas
15Este levantamento dos pacientes da Unidade de Nefrologia do Instituto da Criança - HCFMUSP com diagnóstico de DRPAR foi conduzido por meio do banco de dados do SAME (Ref), incluindo o período de 1990-2008. Dos 98 pacientes inicialmente listados, em 25 casos foi firmado o diagnóstico de DRPAR. Realizou-se, em seguida, a análise de cada prontuário, com preenchimento dos formulários de admissão e acompanhamento de cada paciente.
16Verificou-se distribuição semelhante da doença entre os sexos, com 13 pacientes do sexo feminino (52%) e 12 do sexo masculino (48%). A predominância étnica de acometidos pela DRPAR foi caucasiana (76%), seguida de ascendência africana (20%) e asiática (4%; 1 paciente). O diagnóstico pré-natal foi estabelecido em 5 casos (20%), através de ecografia fetal. Constatou-se consangüinidade entre os pais em apenas 2 casos, e histórico familiar de DRPAR em 5 (20% dos casos). Dois pacientes morreram por septicemia, em decorrência de complicações dialíticas.
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18Características Clínicas
19A idade média ao diagnóstico foi de 61,45 meses (0a 336,5 meses).
20A caracterização da casuística, quanto à idade gestacional, mostrou 4 casos de prematuridade (16%) e 13 casos de gestação a termo (52%), enquanto nos 8 casos restantes (32%) não obtivemos informação. Houve necessidade de instituição de ventilação mecânica neonatal em 2 dos recém-nascidos prematuros (50%) e em 1 paciente nascido a termo (5%), porém nenhum deles evoluiu para pneumopatia crônica.
21A Tabela 1 apresenta as freqüências de identificação das características clínicas ao diagnóstico e na análise final da casuística, após um tempo médio de acompanhamento de 152,2 meses (29,8 a 274,9 meses).
22Para controle da hipertensão arterial diagnosticada à apresentação, 36% dos pacientes fizeram uso de inibidores de enzima conversora de angiotensina (IECA); 20% utilizaram beta-bloqueadores; 28% utilizaram bloqueadores dos canais de cálcio; e 36% utilizaram diuréticos. A eritropoetina recombinante humana foi introduzida à apresentação em 8% dos casos, para tratamento de anemia secundária à insuficiência renal crônica. Na análise final, 68% dos pacientes fizeram uso de IECA para controle da hipertensão arterial (17/25); 44% utilizaram beta-bloqueadores (11/25); 48% utilizaram bloqueadores dos canais de cálcio (12/25); e em 36% deles foram utilizados diuréticos (9/25). A eritropoetina recombinante foi administrada a 20% dos casos (5/25) como terapêutica da anemia associada à doença renal crônica.
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24Achados Radiológicos
25A análise radiológica inicial revelou, em 80% das ecografias renais (20/25), rins ecogênicos com cistos grosseiros, enquanto apenas 40% das ecografias sem cistos grosseiros (2/5) demonstraram aumento das dimensões renais. As ecografias de fígado, por sua vez, mostraram-se normais em 64% dos casos (16/25), enquanto em 28% dos pacientes (7/25) apresentaram fígado ecogênico e em 16% (4/25) ductos biliares dilatados.
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27Achados Histopatológicos
28Dois pacientes foram submetidos à nefrectomia unilateral pré-diálise. A análise histológica desse material mostrou túbulos distais e coletores dilatados. Foram realizadas 13 biópsias hepáticas, das quais 6 (46,1%) revelaram disgenesia biliar e 5 (38,5%) demonstraram fibrose hepática congênita.
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30Discussão
31Os dados apresentados neste trabalho representam o início do estudo clínico da doença renal policística autossômica recessiva no Brasil. A comparação dos dados do presente estudo com o maior banco de dados clínicos de DRPAR existente, representativo da população norte-americana (11), mostra distribuições de sexo e etnia semelhantes, com idade média de diagnóstico (61,45 meses) muito superior à reportada na coorte norte-americana, em média de 1 a 72 dias de vida.
32Nossa casuística apresenta 20% de diagnósticos antenatais, cifra maior do que a verificada por Zerres et al 1 na população alemã (10%), mas muito inferior aos dados norte-americanos, nos quais 45,8% dos casos nascidos após 1990 tiveram diagnóstico pré-natal de DRPAR. Assistência ventilatória mecânica neonatal foi necessária em 2/4 dos recém-nascidos prematuros (50%) e em 1 paciente de termo (5%) em nosso estudo, nenhum dos quais evoluiu para pneumopatia crônica. Na coorte norte-americana, por outro lado, 40% dos nascidos após 1990 necessitaram de ventilação mecânica e 11,6% evoluíram com pneumopatia crônica.
33A hipertensão portal foi diagnosticada evolutivamente em 68% dos pacientes de nossa casuística, enquanto apenas 34,2% dos pacientes norte-americanos a apresentaram. A freqüência de sangramento de varizes esofágicas também foi maior na casuística brasileira (24%) comparada à norte-americana (10%).
34Nossos dados se assemelham à casuística norte-americana quanto ao achado inicial de hiponatremia, assim como em relação às freqüências de insuficiência renal crônica e hipertensão arterial, esta a morbidade mais freqüentemente diagnosticada na DRPAR. As freqüências de realização de transplantes renais e hepáticos na casuística de Guay-Woodford et al (11) foram, respectivamente, de 22,5%e 7%, enquanto em nossa população de pacientes 5% foram submetidos a transplante renal, mas nenhum a transplante de fígado.
35Os achados de ultrassom no estudo norte-americano (11) revelaram rins ecogênicos com cistos grosseiros em 50% das ecografias iniciais e rins ecogênicos sem cistos nos demais casos, enquanto 52,7% das ecografias iniciais de fígado mostraram padrão normal. Nossos resultados, por sua vez, mostraram rins ecogênicos com cistos grosseiros em 80% das ecografias renais iniciais (20/25) e 64% das ecografias de fígado com padrão normal. Porém, é preciso ressaltar que, de acordo comZerres et al 1, as alterações ultrassonográficas frequentemente não são perceptíveis no período prenatal, momento no qual e feito o diagnóstico da doença em quase metade dos casos norte-americanos.
36Os achados anatomopatológicos renais de ambas as casuísticas foram semelhantes, porém na casuística norte-americana encontrou-se disgenesia biliar em 95,5% dos casos, ao passo que entre os casos brasileiros 46,1% cursaram com disgenesia biliar, 38,5% apresentaram fibrose hepática congênita e 15,4% acompanharam-se de morfologia hepática preservada.
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38Conclusão
39Em conclusão, os resultados descritos apontam para as variáveis manifestações da doença renal policística autossômica recessiva presentes na população brasileira. Os pacientes estudados tiveram diagnóstico tardio, complicado pelo freqüente desconhecimento da apresentação clínica da DRPAR entre profissionais da saúde em nosso país. Tais pacientes apresentaram, de modo geral, acometimento renal precoce e desenvolvimento posterior de morbidades hepáticas.
40Os dados apresentados neste estudo representam o início de um projeto que visa construir um banco de dados, com características demográficas e clínicas, iniciais e evolutivas, da DRPAR na população brasileira, visando gerar uma plataforma de informações necessária ao estabelecimento de correlações genótipo-fenótipo. O próximo passo a ser dado consiste na agregação já iniciada de pacientes de outros centros médicos de várias regiões do Brasil. A importância de um banco de dados nacional se deve não só à caracterização da doença na população brasileira, mas também à viabilização da identificação de pacientes para estudos clínicos futuros.
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42Referências
431. Zerres K, Mucher G, Becker J, et al. Prenatal diagnosis of autosomal recessive polycystic kidney disease (ARPKD): molecular genetics, clinical experience, and fetal morphology. Am J Med Genet. 1998; 76:137-44.
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3. Guay-Woodford LM, Muecher G, Hopkins SD, et al. The severe perinatal form of autosomal recessive polycystic kidney disease maps to chromosome 6p21.1-p12: implications for genetic counseling. Am J Hum Genet. 1995; 56: 1101-1107.
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